A eficácia da radiofrequência no tratamento hemorroidário está diretamente relacionada à seleção adequada do caso. Este guia apresenta critérios objetivos de indicação, contraindicações e protocolo de avaliação pré-operatória para otimizar resultados.
Paciente ideal para radiofrequência
O sucesso terapêutico com Rafaelo depende fundamentalmente de três fatores: grau hemorroidário, sintomatologia e expectativas do paciente.
Indicações preferenciais:
Hemorroidas grau I:
- Sangramento recorrente refratário a tratamento clínico
- Paciente motivado que busca solução definitiva
- Falha de medidas conservadoras por período mínimo de 6-8 semanas
- Impacto significativo na qualidade de vida
Hemorroidas grau II:
- Prolapso com redução espontânea
- Sangramento associado ou não
- Componente externo ausente ou mínimo
- Preservação adequada do tônus esfincteriano
Sintomatologia que favorece RF:
- Sangramento como sintoma principal
- Desconforto/sensação de peso (sem dor intensa)
- Prolapso leve intermitente
- Paciente que valoriza recuperação rápida
Avaliação pré-operatória essencial
Anamnese direcionada
Elementos-chave a investigar:
Histórico intestinal:
- Padrão evacuatório (Bristol 1-7)
- Presença de constipação crônica
- Esforço evacuatório habitual
- Uso crônico de laxantes
Sintomatologia atual:
- Duração e intensidade do sangramento
- Características do prolapso (frequência, redutibilidade)
- Presença de dor (diferencia trombose de hemorroida não complicada)
- Impacto nas atividades diárias
Fatores de risco:
- Gestações prévias (multiparidade)
- Obesidade (IMC >30)
- Atividade profissional (ortostatismo prolongado)
- Prática de exercícios de alta intensidade
Exame físico proctológico
Inspeção estática:
- Avaliar presença de componente externo (mamilos cutâneos)
- Identificar fissuras, plicomas, lesões dermatológicas
- Observar prolapso espontâneo durante manobra de Valsalva
Toque retal:
- Tônus esfincteriano (hipotonia relativa é fator de risco)
- Presença de massas palpáveis
- Dor ao toque (sugere complicação aguda)
- Avaliação da ampola retal
Anuscopia:
- Classificação precisa do grau (Goligher)
- Localização dos mamilos (horários 3-7-11h)
- Identificação de componente interno isolado
- Avaliação da mucosa retal (exclusão de proctite)
Critérios de exclusão e contraindicações
Contraindicações absolutas
- Hemorroidas grau IV com prolapso irredutível
- Trombose hemorroidária aguda (aguardar resolução)
- Abscesso ou fístula anorretal ativa
- Doença inflamatória intestinal em atividade
- Neoplasia colorretal não tratada
- Coagulopatias graves não corrigíveis
- Gravidez (adiar para pós-parto)
Contraindicações relativas
Situações que exigem avaliação individualizada:
Hemorroidas grau III:
- Pode ser tentado em casos selecionados
- Paciente deve estar ciente de maior taxa de reintervenção (15-25%)
- Considerar se componente externo é mínimo
Componente misto significativo:
- RF trata componente interno
- Pode ser necessário procedimento adicional para externo
- Expectativa realista do paciente é fundamental
Imunossupressão:
- HIV controlado (CD4 >200): geralmente seguro
- Uso de corticoides/imunobiológicos: avaliar risco-benefício
- Diabete descompensado: otimizar controle glicêmico previamente
Paciente anticoagulado:
- Suspensão nem sempre necessária (procedimento de baixo risco hemorrágico)
- Avaliar risco trombótico vs hemorrágico
- Considerar ponte com heparina se indicado
Exames complementares: quando solicitar
Retossigmoidoscopia/Colonoscopia
Indicações obrigatórias:
- Paciente >45 anos sem rastreamento de câncer colorretal nos últimos 5 anos
- Mudança recente do hábito intestinal
- Sangramento com características atípicas (sangue escuro, misturado às fezes)
- História familiar de neoplasia colorretal
- Anemia desproporcional ao sangramento hemorroidário
- Perda de peso não intencional
Pode ser dispensada:
- Paciente <40 anos, sem fatores de risco
- Sangramento claramente relacionado ao esforço evacuatório
- Exame endoscópico recente (últimos 2 anos) sem alterações
Exames laboratoriais
Rotina pré-operatória básica:
- Hemograma completo (avaliar anemia)
- Coagulograma (TP/TTPA, plaquetas)
- Glicemia (se diabético)
- Função renal (se uso de AINEs previsto)
Observação: Por ser procedimento ambulatorial de baixo risco, exames extensivos não são necessários em pacientes ASA I-II saudáveis.
Expectativas do paciente: alinhamento essencial
Parte fundamental da seleção é garantir que o paciente compreende:
O que RF oferece:
- Tratamento minimamente invasivo
- Recuperação em 3-5 dias (média)
- Menor dor que cirurgia convencional
- Procedimento repetível se necessário
- Preservação da função esfincteriana
O que RF NÃO oferece:
- Solução para hemorroidas externas grandes (trombosadas prévias)
- Garantia de resultado “perfeito” em 100% dos casos
- Cobertura por convênios (procedimento particular)
- Ausência total de desconforto pós-operatório
Taxa realista de sucesso:
- Resolução completa/satisfatória: 85-90%
- Necessidade de reintervenção: 8-15% em 2 anos
- Taxa de complicações: <5%
H2: Checklist prático de seleção
Paciente é CANDIDATO IDEAL se:
✅ Hemorroida grau I ou II confirmado por anuscopia
✅ Sintomas refratários a tratamento conservador (>6 semanas)
✅ Ausência de complicações agudas (trombose, abscesso)
✅ ASA I ou II (baixo risco anestésico)
✅ Expectativas realistas após orientação adequada
✅ Disponibilidade financeira (procedimento particular)
✅ Exames complementares adequados para idade/fatores de risco
Paciente requer AVALIAÇÃO ADICIONAL se:
⚠️ Hemorroida grau III (avaliar componente externo)
⚠️ Sintomas atípicos ou desproporcionais ao exame
⚠️ Uso de anticoagulantes (ajustar protocolo)
⚠️ Comorbidades significativas (otimizar previamente)
⚠️ História de múltiplos procedimentos anorretais prévios
Paciente NÃO é candidato se:
❌ Grau IV ou prolapso irredutível
❌ Complicação aguda não resolvida
❌ Expectativa de cobertura por convênio
❌ Doença inflamatória intestinal ativa
❌ Neoplasia colorretal não investigada/tratada
Documentação e consentimento
Registro em prontuário deve incluir:
- Classificação do grau (Goligher) com desenho esquemático
- Sintomas principais e duração
- Tratamentos prévios realizados
- Achados do exame proctológico
- Justificativa da indicação de RF
- Discussão de alternativas terapêuticas
- Riscos e benefícios apresentados ao paciente
Termo de consentimento específico deve abordar:
- Natureza particular do procedimento (sem cobertura ANS)
- Taxa de reintervenção (8-15%)
- Possibilidade de sintomas residuais
- Necessidade de seguimento regular
- Importância das mudanças de hábitos associadas
1. Qual a principal causa de insatisfação em pacientes tratados com RF?
Seleção inadequada do caso. Pacientes com componente externo significativo ou expectativa de resolução de plicomas cutâneos (sequelas de trombose prévia) frequentemente ficam insatisfeitos, mesmo com resolução do componente interno. O alinhamento de expectativas pré-operatório é fundamental.
2. Posso fazer RF em paciente com hemorroida grau III?
Sim, em casos selecionados. Pacientes grau III com componente externo mínimo e boa redutibilidade podem se beneficiar, mas a taxa de reintervenção é maior (15-25% vs 8-15% no grau II). Essencial: orientação clara sobre possível necessidade de procedimento complementar futuro.
3. Como abordar paciente que quer RF mas tem indicação de hemorroidectomia?
Transparência. Explique que RF não é tecnicamente indicado para o grau/sintoma apresentado, apresente as diferenças de resultado esperado e deixe claro os riscos de subtratar a doença. Se o paciente insiste na RF por restrição de tempo/afastamento, documente extensamente a orientação e obtenha consentimento explícito sobre limitações.
4. Idade é fator limitante para RF?
Não diretamente. A limitação é a condição clínica (ASA) e presença de comorbidades. Pacientes idosos com hemorroidas grau I-II e baixo risco anestésico são candidatos, especialmente se a cirurgia convencional representa risco aumentado. Idosos frágeis ou com múltiplas comorbidades podem não se beneficiar de procedimento eletivo.5. Paciente operado previamente (hemorroidectomia parcial) pode fazer RF?
Sim, desde que haja mamilos internos remanescentes que justifiquem intervenção. A avaliação deve ser criteriosa para diferenciar sintomas de hemorroidas residuais de outras causas (estenose, dor crônica pós-operatória). A presença de fibrose pode dificultar tecnicamente o procedimento.
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Referências:
- Brown SR, et al. Management of haemorrhoids: summary of NICE guidance. BMJ. 2020.
- ASCRS Clinical Practice Guidelines for the Management of Hemorrhoids. Dis Colon Rectum. 2018.
- Dados técnicos: Fcare Systems / Genesys Med Brasil.
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