O manejo adequado do pós-operatório é determinante para satisfação do paciente e sucesso terapêutico em radiofrequência. Este protocolo apresenta orientações práticas para as primeiras horas, primeiros dias e seguimento de médio prazo.
Primeiras horas: sala de recuperação
Imediatamente após o procedimento
Monitorização básica:
- Sinais vitais a cada 15 minutos na primeira hora
- Avaliar nível de consciência (se sedação foi utilizada)
- Observar sangramento no curativo/fralda
- Questionar sobre dor (escala 0-10)
Critérios de alta (geralmente 2-4h pós-procedimento):
- Sinais vitais estáveis
- Deambulação sem tonturas
- Dor controlada (escala ≤4/10)
- Ausência de sangramento ativo significativo
- Paciente urinou espontaneamente (se bloqueio/sedação)
- Acompanhante presente (se sedação foi utilizada)
Situações que retardam alta:
- Retenção urinária aguda (mais comum em homens >50 anos)
- Sangramento persistente moderado
- Dor não controlada (escala >6 após analgesia)
- Hipotensão ou bradicardia (raras)
Prescrição de alta: protocolo farmacológico
Analgesia escalonada
Dias 0-3 (fase aguda):
1ª linha:
- Dipirona 1g VO 6/6h (analgésico base)
- Paracetamol 750mg VO 6/6h (potencialização)
Se dor persistente (escala >4):
- Adicionar: Tramadol 50-100mg VO 8/8h (por até 3 dias)
- OU: Codeína 30mg VO 8/8h
Evitar:
- AINEs nas primeiras 48-72h (risco teórico de sangramento, embora baixo)
- Opioides potentes (raramente necessários)
Dias 4-7 (fase de manutenção):
- Manter Dipirona 1g VO se necessário (demanda)
- Paracetamol pode ser mantido 8/8h
- Desmame de opioides se foram utilizados
Regulação intestinal
Objetivo: Primeira evacuação macia e sem esforço.
Prescrição padrão:
- Lactulose 10-20ml VO 12/12h (iniciar na alta, ajustar dose)
- OU: Polietilenoglicol (PEG) 1 envelope VO 1-2x/dia
- Considerar: Supositório de glicerina se não evacuar até D2
Orientação dietética:
- Aumentar fibras SOLÚVEIS (aveia, mamão, ameixa)
- Hidratação rigorosa (2L água/dia mínimo)
- Evitar: álcool, pimenta, alimentos muito processados nos primeiros 7 dias
Cuidados locais
Higiene:
- Banhos de assento mornos 2-3x/dia (10-15 min)
- Após evacuação: limpeza com água morna (ducha higiênica se disponível)
- Secar com toques suaves (não esfregar)
- Pomada cicatrizante/anestésica local (opcional, conforto)
Exemplos:
- Proctyl® creme (lidocaína + anti-inflamatório)
- Proctoacid® (ácido hialurônico)
- OU similar disponível
Evolução esperada dia a dia
D0 (dia do procedimento):
- Desconforto leve a moderado
- Sensação de “peso” ou “ardência” local
- Primeira micção pode ter hesitação (especialmente homens)
D1-D2:
- Dor tende a aumentar levemente (pico usual: D1-D2)
- Ansiedade pela primeira evacuação (tranquilizar paciente)
- Secreção serossanguinolenta é NORMAL (orientar previamente)
D3-D5:
- Dor em declínio
- Primeira evacuação geralmente ocorre (D2-D3)
- Pequeno sangramento durante/após evacuação é ESPERADO (algumas gotas)
D7-D14:
- Desconforto mínimo residual
- Retorno gradual às atividades habituais
- Pode haver saída de pequeno coágulo ou tecido necrosado (orientar que é esperado)
D15-D30:
- Resolução completa da dor
- Avaliação clínica de resultado (consulta de retorno)
Orientações de retorno às atividades
| Atividade | Liberação |
| Trabalho sedentário | 3-5 dias |
| Trabalho com esforço físico leve | 7-10 dias |
| Trabalho pesado | 14-21 dias |
| Atividade física leve (caminhada) | 7 dias |
| Musculação/corrida | 14-21 dias |
| Ciclismo/spinning | 21-28 dias |
| Atividade sexual | 7-10 dias (avaliar desconforto) |
| Viagens longas | Evitar nas primeiras 2 semanas |
Complicações: identificação e manejo
Complicações precoces (<7 dias)
1. Sangramento (mais comum)
Sangramento leve/moderado esperado:
- Algumas gotas/fios de sangue durante evacuação
- Sangue vivo no papel higiênico
- Manejo: observação, orientar repouso relativo
Sangramento que requer atenção:
- Sangramento contínuo (gotejamento persistente)
- Formação de coágulos grandes
- Instabilidade hemodinâmica (raro)
- Conduta: reavaliar em consultório/pronto-atendimento
2. Retenção urinária aguda
Incidência: 2-5% (maior em homens >50 anos, hipertrofia prostática)
Fatores de risco:
- Bloqueio anestésico extenso
- Uso de opioides
- Hidratação excessiva no intraoperatório
Manejo:
- Cateterização vesical de alívio se >8h sem urinar e globo vesical
- Considerar tamsulosina 0,4mg/dia por 3-5 dias (profilático em casos de risco)
3. Dor desproporcional
Dor ESPERADA: 3-5/10, responsiva a analgésicos comuns
Dor ANORMAL: >6/10, não responde a analgesia escalonada
Causas:
- Espasmo esfincteriano (mais comum)
- Trombose hemorroidária secundária (rara)
- Infecção precoce (raríssima)
Manejo:
- Espasmo: nitroglicerina tópica 0,2% (aplicar pequena quantidade 12/12h)
- Reavaliar paciente presencialmente se dor persiste >48h
Complicações tardias (>7 dias)
1. Infecção local
Incidência: <1%
Sinais:
- Dor crescente após D5-D7 (ao invés de melhorar)
- Febre, calafrios
- Secreção purulenta, odor fétido
- Edema/eritema perianal
Conduta:
- Antibioticoterapia (ciprofloxacino 500mg 12/12h + metronidazol 500mg 8/8h)
- Reavaliação em 48-72h
- Drenagem se coleção identificada
2. Trombose hemorroidária externa secundária
Incidência: 3-5%
Apresentação:
- Surgimento de “caroço” doloroso externo após D7-D14
- Pode ocorrer durante cicatrização
Manejo:
- <48h e muito sintomático: considerar drenagem/excisão sob anestesia local
- 48h ou pouco sintomático: tratamento clínico (AINEs, repouso)
3. Estenose/estreitamento
Incidência: <1% (muito rara com RF)
Apresentação:
- Dificuldade evacuatória progressiva
- Sensação de “fezes presas”
- Geralmente >30 dias
Conduta:
- Dilatação digital suave progressiva
- Laxantes osmóticos
- Casos graves: dilatação sob sedação
Seguimento ambulatorial
Consulta de retorno D15-D30:
Objetivo: Avaliar resultado e identificar necessidade de reintervenção.
Avaliação:
- Anamnese: resolução de sintomas? Sangramento cessou? Satisfação?
- Exame físico: inspeção + toque retal suave (anuscopia geralmente desnecessária neste momento)
- Cicatrização: presença de escara residual é normal até D30
Critérios de sucesso:
- Ausência de sangramento
- Resolução do prolapso
- Satisfação do paciente
- Ausência de complicações
Critérios de falha/necessidade de reintervenção:
- Persistência de sangramento significativo >D30
- Prolapso não resolvido
- Sintomas inalterados
Observação: Aguardar mínimo 60-90 dias antes de indicar reintervenção (cicatrização completa).
FAQ – Perguntas frequentes
1. Qual o pico de dor esperado e quando ocorre?
O pico de desconforto geralmente ocorre entre D1-D2, com escala de dor média 4-5/10. Após D3, há declínio progressivo. Dor que AUMENTA após D5-D7 é atípica e requer reavaliação (possível complicação).
2. Sangramento na primeira evacuação: quando é normal e quando preocupar?
Normal: algumas gotas de sangue vivo, manchas no papel higiênico, cessa espontaneamente. Anormal: sangramento contínuo por >5 minutos, formação de coágulos, necessidade de múltiplas trocas de absorvente. Na dúvida, reavaliar o paciente.
3. Paciente não evacuou até D3: o que fazer?
Aumentar dose de laxante osmótico (lactulose até 30ml 8/8h ou PEG 2 envelopes/dia). Considerar supositório de glicerina. Evitar estimulantes orais (bisacodil) nas primeiras 2 semanas. Se não evacuar até D5, reavaliar presencialmente (pode haver fecaloma ou estenose aguda – raro).
4. Quando suspender profilaticamente anticoagulantes/antiagregantes?
RF é procedimento de baixo risco hemorrágico. AAS e clopidogrel geralmente não precisam ser suspensos (avaliar risco cardiovascular vs hemorrágico). Anticoagulantes plenos (varfarina, DOACs): discutir com cardiologista, considerar ponte se alto risco trombótico. Não há protocolo universal – individualizar.
5. Paciente relata “saiu um pedaço de carne”: é normal?
Sim. Entre D7-D14, pode haver eliminação de tecido necrosado (escara). Orientar previamente o paciente para evitar pânico. Se associado a sangramento intenso ou dor desproporcional, reavaliar. Se eliminação assintomática, é parte esperada do processo cicatricial.
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Referências:
- Pol RA, et al. Long-term results of rubber band ligation of hemorrhoids. Dis Colon Rectum. 2019.
- Gupta PJ. Radiofrequency coagulation versus rubber band ligation in early hemorrhoids. Techniques in Coloproctology. 2003.
- Dados técnicos: Fcare Systems / Genesys Med Brasil.
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